Introdução
Documentos obtidos pela organização Democracy Forward revelam que o Departamento de Segurança Interna (DHS), por meio de sua divisão Immigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE), explorou a possibilidade de utilizar uma ferramenta desenvolvida pela empresa Palantir para investigar fraudes eleitorais. A ferramenta em questão, chamada ELITE (Enhanced Leads Identification & Targeting for Enforcement), é normalmente usada para identificar e priorizar alvos para operações de deportação.
O Que São os Documentos?
Os documentos, obtidos por meio de uma solicitação do Freedom of Information Act (FOIA), mostram que a ICE considerou alimentar dados de cadastros eleitorais no sistema ELITE, que é suportado pela Palantir. Segundo os registros, a iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla para investigar supostas fraudes eleitorais, incluindo a análise de milhões de registros de eleitores.
Em um e-mail de 26 de maio de 2026, um funcionário da ICE descreveu um relatório semanal que enfatizava uma abordagem baseada em redes para investigar fraudes, priorizando a análise de organizações e facilitação em vez de leads individuais. Isso indica que a estratégia não se limitava a investigar votos fraudulentos isolados, mas também visava identificar grupos ou redes que poderiam estar envolvidas.
Detalhes da Ferramenta ELITE
A ferramenta ELITE, desenvolvida pela Palantir, é descrita como um sistema de identificação e priorização de alvos para operações de enforcement. Ela permite que agentes da ICE criem mapas com potenciais alvos de deportação, acessem dossiês detalhados sobre indivíduos e atribuam uma pontuação de confiança à localização atual de uma pessoa.
Embora a Palantir tenha afirmado que dados de cadastros eleitorais nunca foram integrados ao ELITE, os documentos obtidos pela Democracy Forward sugerem que a ICE estava explorando essa possibilidade. Em um e-mail de 7 de julho de 2026, um funcionário da DHS mencionou que dados de seis estados (Connecticut, Georgia, Kentucky, Michigan, Missouri e Novo México) estavam pendentes de entrada no ELITE.
Escala das Investigações
Os documentos revelam que a ICE obteve quase 100 milhões de registros de eleitores de várias fontes, incluindo 50,6 milhões do Departamento de Justiça (DOJ) e 48,4 milhões de fontes independentes. Esses dados foram analisados para identificar potenciais alvos de investigação.
Além disso, a ICE investigou centenas de organizações não governamentais envolvidas no registro de eleitores, incluindo 82 organizações na Pensilvânia e 41 em New Jersey. Essas organizações foram alvo de investigações devido a suspeitas de que estariam ajudando não cidadãos a se registrar para votar.
Preocupações com Privacidade e Legalidade
O uso de dados de eleitores por uma ferramenta desenvolvida para operações de imigração levantou sérias preocupações sobre privacidade e legalidade. Especialistas argumentam que a coleta e análise massiva de dados eleitorais sem uma base legal clara podem violar leis de proteção de privacidade e direitos civis.
Chinmayi Sharma, professora associada da Fordham Law School, afirmou que a iniciativa parece ser parte de um esforço para construir um sistema que possa identificar e perseguir pessoas com base em dados analisados, mesmo que não haja evidências concretas de fraude.
A Palantir, por sua vez, afirmou que, embora tenha desenvolvido a ferramenta e a hospede, não controla ou retém os dados inseridos no sistema ELITE. No entanto, a empresa não esclareceu completamente como os dados foram obtidos ou processados.
Reações e Contexto Político
Essas investigações ocorrem em um contexto político tenso, especialmente após as eleições de 2024, onde alegações de fraude eleitoral foram amplamente questionadas. A iniciativa da ICE parece estar alinhada com as afirmações do ex-presidente Donald Trump e seus aliados sobre a necessidade de combater a fraude eleitoral.
Hart Wood, advogado sênior da Democracy Forward, afirmou que os documentos revelam um esforço coordenado para deslegitimar eleições e aumentar o controle federal sobre o processo eleitoral. Ele destacou que, embora a ICE não tenha jurisdição sobre fraudes eleitorais, a agência está usando seus recursos para investigar organizações e indivíduos sem evidências concretas.
Conclusão
Os documentos obtidos pela Democracy Forward expõem uma iniciativa preocupante em que ferramentas de enforcement de imigração estão sendo exploradas para investigar fraudes eleitorais. Embora a Palantir e a ICE afirmem que não há integração direta de dados eleitorais no sistema ELITE, as evidências sugerem que a fronteira entre imigração e justiça eleitoral está se tornando cada vez mais tênue.
Esse caso levanta questões importantes sobre o uso de tecnologia e dados em investigações governamentais, bem como os limites da vigilância em nome da segurança nacional e da integridade eleitoral.