O CEO da Skydio, Adam Bry, fala sobre autonomia, defesa e os desafios de fabricar drones nos EUA
Em um cenário onde a tecnologia de drones avança rapidamente, a Skydio, líder norte-americana na fabricação de drones autônomos, se destaca não apenas por sua inovação, mas também pelos dilemas éticos e geopolíticos que enfrenta. Em entrevista exclusiva ao The Verge, o CEO Adam Bry abordou temas como a transição do mercado consumidor para o empresarial, a competição com drones chineses, a fabricação nos EUA e os limites éticos do uso de drones em aplicações militares e de segurança pública.
A Skydio e a Evolução dos Drones
Fundada em 2014, a Skydio começou como uma empresa focada em drones para consumidores, mas em 2020 decidiu pivotar para o mercado empresarial e governamental. Segundo Bry, a mudança foi motivada pela oportunidade de impacto em setores críticos, como segurança pública, infraestrutura energética e defesa. “Queríamos construir soluções que realmente mudassem resultados”, afirmou.
A empresa se destaca por sua tecnologia de autonomia baseada em inteligência artificial (IA), que permite aos drones voarem sem intervenção humana, evitando obstáculos e realizando missões complexas. “Usamos redes neurais profundas desde 2017, muito antes de se tornar comum em produtos robóticos”, explicou Bry.
Fabricação nos EUA: Desafios e Oportunidades
Um dos maiores diferenciais da Skydio é a fabricação de seus drones nos Estados Unidos. Enquanto a maioria dos concorrentes, como a chinesa DJI, produz seus dispositivos na Ásia, a Skydio investiu pesadamente em infraestrutura local. “Começamos a fabricar nos EUA em 2016, quando todos achavam que era loucura”, disse Bry. “Hoje, isso se tornou uma vantagem estratégica, especialmente com as restrições impostas a drones chineses.”
No entanto, fabricar nos EUA não é simples. Bry reconhece que a cadeia de suprimentos ainda é limitada em comparação com a China, mas acredita que a empresa pode se tornar “world-class” em manufatura de drones no país. “Não há uma lei da física que diga que não podemos ter uma indústria de eletrônicos de ponta nos EUA”, afirmou.
A Skydio anunciou recentemente um investimento de US$ 3,5 bilhões nos próximos cinco anos para expandir sua capacidade de produção nos EUA, incluindo uma nova fábrica e parcerias com fornecedores locais.
A Competição com a DJI e as Restrições Governamentais
A decisão do governo dos EUA de banir drones fabricados na China, como os da DJI, abriu espaço para empresas como a Skydio. No entanto, Bry evita caracterizar a medida como uma “vantagem injusta”. “Não me importo se drones chineses estão no mercado ou não. O que importa é que estamos em uma corrida tecnológica com a China, e queremos que nossas tropas tenham as melhores ferramentas”, disse.
Ele também destacou que a Skydio já compete de igual para igual com a DJI em aplicações empresariais, especialmente em drones autônomos e integrados a sistemas de nuvem. “Em muitos casos, nossos clientes preferem nossas soluções porque oferecemos autonomia avançada e integração com softwares de gestão”, afirmou.
No entanto, o mercado consumidor ainda sente falta de opções acessíveis. “Gostaria que pudéssemos oferecer drones mais baratos, mas nosso foco está em mercados onde podemos ter um impacto real”, admitiu Bry.
Drones e Ética: Onde Traçar a Linha?
Um dos temas mais sensíveis abordados na entrevista foi o uso de drones em aplicações militares e de segurança pública. Bry defende que a Skydio não deve impor limites unilaterais ao uso de seus produtos. “Não cabe a nós, em um escritório no Vale do Silício, decidir como o Exército ou a polícia devem usar nossos drones”, argumentou.
Ele acredita que os processos democráticos e as regulamentações existentes são suficientes para garantir o uso ético da tecnologia. “Os militares e as forças policiais são responsáveis perante líderes eleitos. Eles têm equipes inteiras pensando em como usar essas ferramentas de forma responsável”, disse.
No entanto, Bry reconhece que há preocupações legítimas sobre privacidade e vigilância. Para mitigar esses riscos, a Skydio desenvolveu um Transparency Dashboard, que permite aos cidadãos acompanhar os voos de drones em suas comunidades. “Se você está preocupado com vigilância, pode verificar exatamente onde e quando um drone voou”, explicou.
O Futuro dos Drones Autônomos
Para Bry, o futuro dos drones está na autonomia e na integração com sistemas de nuvem. “Estamos entrando em uma era onde drones serão infraestrutura, como torres de celular”, previu. Ele citou como exemplo o Skydio X10, um drone capaz de voar de forma autônoma a partir de uma estação de ancoragem, cobrindo áreas de até 80 km de raio.
“Imagine um drone que decola automaticamente em resposta a uma chamada de emergência e chega ao local em minutos. Isso pode salvar vidas”, disse. No entanto, ele admitiu que a adoção em massa ainda enfrenta desafios, como o custo elevado e a resistência de alguns setores.
Quando questionado sobre a possibilidade de a Skydio voltar a fabricar drones para consumidores, Bry foi categórico: “Gostaria, mas nosso foco está em mercados onde podemos ter um impacto transformador. Talvez outra empresa possa preencher essa lacuna.”
Conclusão: Tecnologia com Responsabilidade
A entrevista com Adam Bry revela uma empresa que busca equilibrar inovação, responsabilidade ética e viabilidade comercial. Enquanto a Skydio avança na autonomia de drones e expande sua presença em mercados críticos, questões sobre privacidade, vigilância e uso militar continuam a desafiar não apenas a empresa, mas toda a indústria.
“A tecnologia pode ser uma força para o bem, mas cabe a nós garantir que ela seja usada de forma responsável”, concluiu Bry. “E isso exige um diálogo constante entre empresas, governos e sociedade.”