Secretário de Saúde dos EUA defende uso de IA para desafiar experts médicos, mas especialistas alertam para riscos de ‘alucinações’ digitais
Em um evento recente intitulado Make America Healthy Again, o Secretário de Saúde dos Estados Unidos, Robert F. Kennedy Jr. (RFK Jr.), causou polêmica ao afirmar que a inteligência artificial (IA) seria capaz de oferecer aos pacientes uma “segunda opinião muito melhor informada do que qualquer médico do país”. Segundo ele, a tecnologia poderia “libertar a população da tirania médica”, desafiando consensos científicos sobre vacinas, uso de máscaras e distanciamento social.
Kennedy, que não possui formação em medicina ou saúde pública, afirmou que a IA seria uma ferramenta para validar suas próprias visões contrárias às recomendações de especialistas. “Nunca mais os americanos serão dominados por funcionários públicos que dizem confiar nos experts, porque cada cidadão poderá verificar suas próprias recomendações médicas”, declarou durante um bate-papo com o vice-presidente JD Vance.
IA como ‘Superior’ aos Médicos?
Durante o evento, Kennedy citou até mesmo uma suposta conversa com o CEO da OpenAI, Sam Altman, na qual o executivo teria afirmado que médicos estariam cometendo má prática se diagnosticassem pacientes sem antes consultar sistemas de IA. Ele ainda exemplificou situações em que a IA contradiria recomendações oficiais, como:
- Afirmar que máscaras não são eficazes contra a transmissão de doenças;
- Desacreditar a eficácia das vacinas na prevenção de infecções;
- Questionar a necessidade de distanciamento social.
No entanto, especialistas em saúde pública e tecnologia alertam: a IA, apesar de seus avanços, ainda é suscetível a erros graves, conhecidos como hallucinações. Trata-se de respostas falsas, mas apresentadas com confiança, que podem levar a diagnósticos incorretos, prescrições inadequadas e até mesmo negligência em casos críticos.
Os Riscos das ‘Alucinações’ da IA na Medicina
Estudos recentes, como os publicados na BMC Health Services Research e analisados pelo Medscape, revelam que até 27% das decisões clínicas geradas por IA foram consideradas potencialmente perigosas por revisores humanos. Um levantamento da Edelman Trust Barometer, em parceria com a Yale School of Public Health, mostrou que 49% dos entrevistados em 13 países acreditam que uma pessoa sem formação médica, mas usando IA, poderia realizar tarefas de saúde tão bem quanto um médico.
No entanto, os dados também indicam que a confiança cega na IA pode ser arriscada. Um estudo de 2024, publicado na Nature, demonstrou que até 18% das recomendações geradas por modelos de linguagem em saúde continham erros graves. Em um ambiente de alta estaca como a medicina, mesmo pequenos equívocos podem ter consequências fatais.
“A IA não é infalível. Ela pode sugerir tratamentos inexistentes, ignorar interações medicamentosas ou até mesmo inventar sintomas”, explica um artigo da Anterior, empresa especializada em sistemas de IA para saúde. “A solução não é substituir médicos por algoritmos, mas sim usar a tecnologia como uma ferramenta de apoio, sempre supervisionada por profissionais qualificados.”
Controvérsias e Desdobramentos
As declarações de Kennedy ocorreram em um momento em que o governo dos EUA enfrenta críticas por decisões polêmicas na área de saúde. Em junho de 2025, ele demitiu todos os 17 membros do comitê consultivo da CDC sobre vacinas, substituindo-os por indicados de sua confiança. Em dezembro do mesmo ano, seus novos membros votaram para encerrar a recomendação da vacina contra hepatite B em recém-nascidos, uma medida que contraria décadas de consenso médico.
Enquanto Kennedy defende a IA como uma forma de “democratizar” o conhecimento médico, críticos argumentam que suas declarações podem minar a confiança na ciência e incentivar práticas perigosas. “A medicina não é uma questão de opinião, mas de evidências. Substituir o julgamento clínico por respostas de IA sem fundamentação é um risco à saúde pública”, alerta um especialista em ética médica.
O Futuro da IA na Saúde: Oportunidades e Limites
Apesar dos riscos, a IA já demonstra potencial para revolucionar a medicina, como:
- Diagnósticos mais rápidos: Sistemas como o IBM Watson for Oncology auxiliam no diagnóstico de câncer com precisão;
- Tratamentos personalizados: Algoritmos analisam genomas para recomendar terapias específicas;
- Redução de custos: Automação de rotinas administrativas libera médicos para focar em cuidados diretos.
No entanto, especialistas concordam que o uso da IA em saúde deve ser regulamentado e supervisionado. Iniciativas como as diretrizes preliminares da Joint Commission e da CHAI buscam estabelecer padrões para mitigar riscos, incluindo:
- Transparência nos algoritmos;
- Revisão humana obrigatória em decisões críticas;
- Sistemas de auditoria para rastrear erros.
“A IA não deve ser usada para substituir a expertise médica, mas para complementá-la. O desafio é garantir que sua implementação seja ética, segura e baseada em dados confiáveis”, conclui um artigo da Harvard Medical School.
Conclusão: Liberdade ou Perigo?
As palavras de RFK Jr. refletem um debate maior sobre o papel da tecnologia na saúde: até que ponto a IA pode (ou deve) desafiar o status quo médico? Enquanto a promessa de acesso democratizado ao conhecimento é atraente, os riscos de decisões equivocadas não podem ser ignorados.
À medida que a IA avança, uma coisa é certa: o futuro da medicina dependerá não apenas da precisão dos algoritmos, mas também da sabedoria humana para usá-los com responsabilidade.