Ferramenta de IA do Google Earth gerava imagens falsas e levantava preocupações sobre desinformação
O Google Earth, plataforma conhecida por fornecer imagens de satélite precisas e confiáveis do planeta, recentemente lançou — e logo em seguida retirou — uma ferramenta de inteligência artificial que permitia a criação de imagens falsas de satélite. A funcionalidade, que integrava o gerador de imagens Nano Banana 2 ao Google Earth, possibilitava que usuários inserissem elementos fictícios em cima de imagens reais, gerando cenas que poderiam ser usadas para espalhar desinformação.
A decisão de remover a ferramenta ocorreu após uma onda de críticas de especialistas em desinformação, jornalistas e pesquisadores, que alertaram sobre os riscos de abuso da tecnologia. Em menos de 24 horas após o lançamento, o Google anunciou a suspensão da funcionalidade, alegando a necessidade de implementar “mecanismos de proteção mais robustos”.
Como a ferramenta funcionava e por que gerou polêmica
A ferramenta permitia que usuários digitassem prompts de texto para gerar imagens fictícias sobrepostas às imagens reais de satélite do Google Earth. Por exemplo, era possível criar cenas como a Grande Pirâmide de Gizé com um buraco gigante ou a Torre Eiffel destruída, ambas imagens geradas pela BBC Verify para testar a funcionalidade.
Embora o Google tenha adicionado um banner vermelho com a inscrição “AI-GENERATED” (gerado por IA) e um ícone de advertência nas imagens produzidas, especialistas argumentaram que a medida não era suficiente para evitar o uso malicioso. Afinal, as imagens poderiam ser facilmente baixadas e compartilhadas em outras plataformas, sem as devidas marcações de alerta.
Riscos para a credibilidade do Google Earth e desinformação global
O Google Earth é amplamente utilizado por jornalistas, pesquisadores e organizações de verificação de fatos como uma fonte confiável de imagens de satélite. A introdução de uma ferramenta que permitia a criação de imagens falsas colocava em risco a credibilidade da plataforma, segundo especialistas.
Em entrevista à Ars Technica, Giancarlo Ess, pesquisador de desinformação, destacou que a ferramenta poderia ser usada para negar evidências reais. “Governos ou indivíduos poderiam alegar que imagens autênticas de satélite foram modificadas ou geradas por IA, criando dúvidas sobre eventos reais”, afirmou.
Um exemplo citado por Ess envolve um caso anterior em que uma imagem real do Google Earth, mostrando a sede da Quinta Frota da Marinha dos EUA em Manama, Bahrein, foi manipulada usando a IA Gemini do Google. A imagem falsa, que simulava um ataque de drones iranianos à base militar, se espalhou rapidamente nas redes sociais, demonstrando o potencial de danos causados por desinformação geográfica.
Reações da comunidade e especialistas
A comunidade de inteligência de código aberto e verificação de fatos reagiu com preocupação ao lançamento da ferramenta. Eliot Higgins, fundador da organização de investigação Bellingcat, questionou publicamente a decisão do Google em uma postagem no Bluesky: “Google Earth, uma ferramenta frequentemente usada como fonte de imagens de satélite para verificar fotos e vídeos, adicionou um recurso que permite alterar imagens de satélite com IA, sem motivo aparente”.
Jornalistas também manifestaram ceticismo. Um repórter da BBC publicou uma mensagem sarcástica nas redes sociais: “Não há como essa nova funcionalidade de geração de imagens por IA no Google Earth, uma das fontes mais confiáveis de evidências visuais para jornalistas e pesquisadores, possa ser abusada para espalhar desinformação online”.
O futuro da ferramenta e as lições aprendidas
Em comunicado oficial, o Google afirmou que, embora tenha visto “profissionais de geolocalização usando esse recurso para uma variedade de propósitos úteis”, também identificou “pessoas compartilhando capturas de tela de imagens geradas que pareciam violar nossas políticas”. A empresa garantiu que está trabalhando para implementar “mecanismos de proteção mais fortes” antes de reconsiderar o retorno da funcionalidade.
A polêmica levantou debates importantes sobre ética em IA e a responsabilidade das big techs em evitar o uso indevido de suas tecnologias. Enquanto ferramentas de IA generativa avançam rapidamente, o caso do Google Earth serve como um alerta sobre os riscos de inovações que, sem salvaguardas adequadas, podem ser exploradas para fins maliciosos.
Para especialistas, o episódio reforça a necessidade de transparência, regulamentação e colaboração entre empresas de tecnologia, governos e sociedade civil para garantir que o progresso tecnológico não seja usado para minar a verdade.