Uma Batalha que Mudou o Jogo na Política e na Tecnologia
A disputa pela vaga no 12º Distrito Congressional de Nova York, que opôs o ex-funcionário do setor de tecnologia e assemblyman Alex Bores ao também assemblyman Micah Lasher, não foi apenas mais uma eleição primária democrata. Com um investimento recorde de US$ 27 milhões em campanhas de grupos de pressão ligados a gigantes da inteligência artificial, como Anthropic e OpenAI, a corrida se transformou em um verdadeiro campo de batalha sobre o futuro da regulação da IA nos Estados Unidos.
No fim, Bores, que havia se tornado um símbolo da luta por maior controle sobre a tecnologia, perdeu por uma margem estreita para Lasher. Mas o legado da disputa — e o impacto do RAISE Act, lei pioneira de Nova York que ele ajudou a criar — promete reverberar por anos na política americana e no setor de tecnologia.
O RAISE Act: A Lei que Ameaçou os Gigantes da IA
Antes mesmo de entrar na corrida congressional, Bores já era uma figura controversa no Vale do Silício. Como coautor do Responsible AI Safety and Education (RAISE) Act, aprovado em 2025 e sancionado pelo governo de Nova York, ele ajudou a estabelecer um dos primeiros marcos regulatórios abrangentes para IA no país. A lei exige que desenvolvedores de modelos de IA de “fronteira” — aqueles treinados com custos superiores a US$ 100 milhões — implementem planos de segurança para prevenir riscos catastróficos, como o desenvolvimento de armas autônomas, crimes cibernéticos em larga escala ou ameaças à segurança pública.
O RAISE Act também obriga as empresas a reportar incidentes críticos em até 72 horas e a divulgar publicamente seus protocolos de segurança. A medida foi celebrada por defensores da transparência e da ética em IA, mas despertou a fúria de empresas como a OpenAI, que viam na legislação um precedente perigoso para a inovação desregulada.
“Desenvolvedores prometeram nos manter seguros, e essa lei bipartidária simplesmente garante que eles cumpram suas promessas”, afirmou Bores em comunicado após a aprovação do projeto. A lei entrou em vigor em 1º de janeiro de 2027, mas seus efeitos já eram sentidos meses antes, especialmente nas urnas.
A Guerra dos Super PACs: Anthropic vs. OpenAI
A reação da indústria de IA à ascensão de Bores foi rápida e brutal. O super PAC Leading the Future, financiado majoritariamente por investidores da OpenAI, despejou mais de US$ 10 milhões em anúncios negativos contra o candidato, focando em seu passado na Palantir, empresa de análise de dados conhecida por seus contratos com agências de imigração dos EUA. Um dos anúncios afirmava que Bores havia “lucrado centenas de milhares de dólares construindo tecnologia para o ICE [Imigração e Alfândega dos EUA], possibilitando deportações”. Bores negou veementemente as acusações, afirmando que nunca trabalhou em projetos ligados à imigração, mas o dano à sua imagem já estava feito.
Do outro lado, a Anthropic, fundada por ex-funcionários da OpenAI e defensora de uma regulação mais rígida, contra-atacou com o super PAC Public First Action. O grupo investiu milhões em campanhas positivas para Bores, destacando seu papel na criação do RAISE Act e pintando-o como um defensor da segurança pública. Outros grupos menores, como o You Can Push Back, financiado pelo bilionário do setor de criptomoedas Chris Larsen, também entraram na disputa, injetando mais de US$ 3 milhões em apoio ao candidato.
No total, mais de US$ 27 milhões foram gastos por super PACs na disputa, tornando-a uma das primárias mais caras da história recente dos EUA. “Esse tipo de gasto realmente ajuda a moldar quem está à mesa e quais perspectivas eles trazem quando novas legislações são discutidas”, avaliou Michael Beckel, diretor de reforma do financiamento de campanhas da organização Issue One.
O Resultado: Uma Vitória com Gosto de Derrota para a Indústria
Apesar de toda a máquina de guerra montada contra ele, Bores perdeu por uma margem de apenas 5% para Micah Lasher, em uma disputa que também contou com a participação do neto de John F. Kennedy, Jack Schlossberg, e do ex-republicano George Conway. Lasher, que recebeu o apoio do deputado Jerry Nadler, conseguiu se consolidar como o favorito entre eleitores mais velhos e moderados, enquanto Bores manteve uma base fiel entre jovens e progressistas.
Para a indústria de IA, no entanto, o resultado foi ambíguo. Embora a OpenAI e seus aliados tenham conseguido evitar a eleição de Bores — um crítico ferrenho do setor —, a disputa expôs a vulnerabilidade das big techs a campanhas regulatórias. “Se eles conseguiram gastar US$ 27 milhões para derrotar um candidato em uma única eleição, imagine o que não farão para influenciar o Congresso nacional”, alertou um analista político ao The New York Times.
Além disso, a visibilidade do RAISE Act durante a campanha inspirou outros estados a seguirem o exemplo de Nova York. Califórnia, Washington e Illinois já discutem projetos semelhantes, e até mesmo no Congresso federal há pressão por uma legislação nacional baseada no modelo nova-iorquino.
O Legado de Bores e o Futuro da Regulação de IA
Embora não tenha conquistado a vaga no Congresso, Alex Bores deixou um legado indelével. O RAISE Act, que ele ajudou a criar, já é considerado um modelo para futuras regulações de IA nos EUA e no mundo. A lei estabelece um equilíbrio delicado entre inovação e segurança, exigindo transparência e responsabilidade das empresas sem sufocar o desenvolvimento tecnológico.
“Não se intimidem”, disse Bores em uma entrevista ao Transparency Coalition em janeiro de 2026, dirigindo-se a outros legisladores que buscam regular a IA. “Nosso trabalho é garantir que a tecnologia sirva às pessoas, e não o contrário. Se conseguimos aprovar o RAISE Act em Nova York, outros estados e países também podem.”
Para a indústria de IA, a lição é clara: a era da autorregulação está chegando ao fim. Com o aumento da pressão pública e política, empresas como OpenAI e Anthropic terão que aprender a conviver com um cenário regulatório cada vez mais rigoroso — ou continuar gastando fortunas para tentar controlá-lo.
E Agora?
Com Micah Lasher como o provável novo representante do 12º Distrito de Nova York, a expectativa é que ele adote uma postura mais moderada em relação à regulação de IA. Lasher, que evitou tomar posições extremas durante a campanha, já sinalizou que pretende “ouvir todas as partes” antes de propor novas leis. No entanto, a pressão por maior transparência e segurança no setor não deve diminuir.
Enquanto isso, Alex Bores já anunciou que pretende continuar seu trabalho na Assembleia de Nova York, focando em projetos de transparência de dados e segurança digital. “Essa não é uma derrota, é um capítulo”, disse ele em seu discurso de concessão. “A luta pela IA responsável está apenas começando.”