Trump e a flexibilização regulatória: Como a corrida por data centers de IA ameaça saúde e meio ambiente nos EUA

Em um movimento que tem gerado preocupação entre ambientalistas, ex-funcionários da Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos estão alertando sobre os riscos à saúde pública decorrentes da flexibilização das regulamentações ambientais durante o governo Trump. O foco? A construção acelerada de data centers de inteligência artificial (IA), que, segundo especialistas, pode resultar em um aumento significativo da poluição do ar e outros impactos negativos à saúde.

Deregulação e a corrida pelos data centers de IA

Desde o início de seu mandato, o presidente Donald Trump e seu administrador da EPA, Lee Zeldin, têm promovido uma agenda de desregulamentação com o objetivo declarado de tornar os EUA o “capital mundial de IA”. Essa estratégia inclui a redução ou eliminação de barreiras regulatórias para a construção de data centers, muitos dos quais dependem de fontes de energia suja, como turbinas a gás e geradores a diesel.

Em um relatório recente divulgado pela Environmental Protection Network (EPN), uma organização formada por ex-funcionários da EPA, são listadas 30 ações federais tomadas desde janeiro de 2025 que, segundo os autores, agravam os riscos à saúde relacionados à poluição gerada por esses centros de dados. Entre as mudanças, destacam-se:

  • Flexibilização das regras do Clean Air Act, permitindo que data centers evitem a divulgação pública de dados sobre poluição do ar;
  • Exenção de usinas de energia “ilhas” (que não estão conectadas à rede elétrica pública) de regulamentações contra a chuva ácida;
  • Redução dos prazos para aprovação de projetos, muitas vezes sem consultas públicas;
  • Incentivos para que as empresas de IA assumam os custos de energia, mas sem garantir padrões ambientais rigorosos.

Essas mudanças têm levado a uma explosão de poluição em comunidades próximas a esses data centers. De acordo com projeções de pesquisadores da Universidade da Califórnia e de Nova York, a poluição gerada por esses centros até 2028 poderia causar:

  • 600 mil casos de sintomas de asma;
  • 1.300 mortes prematuras;
  • Custos públicos superiores a US$ 20 bilhões em despesas relacionadas à saúde.

No entanto, esses números não levam em conta os efeitos da desregulamentação atual, que poderiam aumentar ainda mais os riscos à saúde.

O “Data Center Health Protection Pledge”: Uma proposta em busca de respostas

Diante desse cenário alarmante, ex-funcionários da EPA têm feito um apelo público para que o governo Trump adote um “Data Center Health Protection Pledge”. Essa proposta visa garantir que:

  • As empresas de IA monitorem e divulguem publicamente os níveis de poluição gerados por seus data centers;
  • Sejam adotadas medidas para mitigar os impactos à saúde, como a redução de emissões de gases poluentes;
  • A população seja informada sobre os riscos e envolvida nas decisões que afetam suas comunidades.

“Uma expansão mais poluente da IA não é inevitável”, afirmou Marc Boom, diretor sênior de assuntos públicos da EPN. “O governo deve medir como essa expansão está alterando a poluição, quem está sendo exposto e o que isso significa para a saúde, tornando todas essas informações públicas.”

No entanto, até o momento, a proposta parece ter encontrado resistência. Enquanto o governo Trump promove o “Ratepayer Protection Pledge”, que obriga as empresas a arcarem com os custos de energia de seus data centers, críticos argumentam que essa medida não garante proteção ambiental adequada.

Impactos na saúde e resistência comunitária

Comunidades em todo o país já estão sentindo os efeitos da construção desses data centers. Em Memphis, Tennessee, por exemplo, a empresa xAI foi processada por operar turbinas a gás sem as devidas licenças ambientais, expondo moradores a riscos adicionais de problemas respiratórios e outras doenças.

“A ciência já mostrou que a exposição a esses poluentes pode causar mortes prematuras, especialmente em áreas já afetadas pela poluição”, alerta um especialista em saúde ambiental. “As crianças, idosos e pessoas com condições pré-existentes são os mais vulneráveis.”

Organizações como a NAACP e o Southern Environmental Law Center têm liderado a resistência contra essa flexibilização regulatória, argumentando que as comunidades devem ter voz nas decisões que afetam seu futuro.

O futuro dos data centers e a saúde pública

Enquanto o governo Trump continua a priorizar o crescimento econômico e a liderança em IA, ex-funcionários da EPA e ambientalistas insistem que é necessário um equilíbrio entre inovação e proteção à saúde pública. A proposta do “Data Center Health Protection Pledge” representa um esforço para trazer essa discussão para o centro do debate, mas seu sucesso depende da disposição do governo em ouvir essas preocupações.

À medida que a demanda por IA continua a crescer, a questão não é apenas como construir esses data centers, mas a que custo para a saúde e o meio ambiente. O desafio agora é garantir que a corrida pela inovação não deixe para trás comunidades já fragilizadas.

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