Em uma investigação alarmante, o Tech Transparency Project (TTP) descobriu que a Meta, empresa dona do Facebook e Instagram, permitiu a veiculação de centenas de anúncios promocionando aplicativos de IA capazes de gerar imagens explícitas a partir de fotos de menores de idade. Os anúncios, muitos deles vinculados a apps desenvolvidos na China, incluíam até mesmo imagens reais de adolescentes, como fotos de uma jovem membro de uma família real europeia e de uma influencer infantil popular no Instagram.
Anúncios com Conteúdo Abusivo e Falhas na Moderação
De acordo com o relatório, a Meta falhou em detectar 332 anúncios contendo material de abuso sexual infantil (CSAM, na sigla em inglês) neste ano. A maioria desses anúncios promovia apps de “nudificação” (nudify), que utilizam inteligência artificial para alterar digitalmente imagens de crianças, transformando-as em conteúdo explícito. Alguns anúncios continham frases como “This is the AI men actually use” (“Esta é a IA que os homens realmente usam”), o que reforça a preocupação com o uso malicioso dessas tecnologias.
Emma Hardy, diretora de comunicações da Internet Watch Foundation (IWF), uma organização que remove conteúdo de abuso infantil da internet, alertou: “Apps de IA estão tornando extremamente fácil criar imagens criminosas de abuso sexual infantil, criando um novo risco de fotos cotidianas de crianças serem transformadas em conteúdo sexual. Plataformas e empresas devem garantir que não haja espaço para que esses apps sejam anunciados e disseminados.”
Reações e Ações da Meta
Após a divulgação da investigação, a Meta afirmou, por meio de um porta-voz, que “a exploração sexual é horrível e trabalhamos agressivamente para mantê-la fora de nossa plataforma“. A empresa também destacou que a maioria dos anúncios violadores tinha alcance mínimo e muitos foram desativados antes mesmo de a reportagem ser publicada. Além disso, a Meta mencionou o lançamento recente de tecnologias de IA para detectar e bloquear anúncios violadores no momento do upload, afirmando que esses sistemas estão em constante melhoria.
No entanto, a empresa foi criticada por demorar dias para remover alguns anúncios, incluindo aqueles que continham imagens reais de menores. Em março de 2026, a Meta relatou ter removido 344 mil anúncios que promoviam apps de nudificação no Instagram e Facebook, entre novembro de 2025 e março de 2026. Apesar disso, o TTP descobriu que muitos anúncios continuaram ativos, mesmo após a empresa ser notificada sobre as violações.
Apps Vinculados à China e Riscos para Menores
Os anúncios investigados estavam majoritariamente vinculados a apps desenvolvidos na China. Muitos deles direcionavam os usuários para aplicativos disponíveis nas lojas de apps da Google e Apple, onde ainda é possível encontrar ferramentas semelhantes, apesar das restrições impostas pelas plataformas.
Um dos casos mais graves envolveu um app chamado CrushAI, que permite gerar imagens nuas de qualquer pessoa a partir de uma foto, sem consentimento. A Meta processou a empresa por trás desse app, a Joy Timeline HK Limited, em Hong Kong, para impedir que seus anúncios continuassem sendo veiculados nas plataformas.
O Tech Transparency Project também descobriu que a Meta permitiu anúncios promocionando festas com drogas, bebidas alcoólicas e transtornos alimentares, utilizando imagens geradas pela própria ferramenta de IA da empresa. Esses anúncios foram aprovados em menos de cinco minutos e direcionados a adolescentes entre 13 e 17 anos nos Estados Unidos.
Pressões Regulatórias e Éticas
A Meta vem enfrentando crescentes pressões regulatórias e críticas de organizações como o Screen Actors Guild of America, que questionam a segurança das crianças nas plataformas. A empresa já implementou controles adicionais para contas de adolescentes, como restrições ao conteúdo que podem visualizar e limites para quem pode entrar em contato com eles.
No entanto, especialistas e organizações de proteção à infância argumentam que essas medidas são insuficientes. A demora na remoção de anúncios abusivos e a permissividade com apps de IA perigosos levantam sérias dúvidas sobre o compromisso da Meta em proteger seus usuários mais vulneráveis.
Enquanto a empresa continua a enfrentar críticas e investigações, a questão central permanece: até quando a Meta priorizará o lucro sobre a segurança das crianças?