Nos últimos anos, os data centers se tornaram um dos temas mais polêmicos nos Estados Unidos, especialmente no contexto do crescimento da inteligência artificial (IA). Segundo pesquisas recentes, uma esmagadora maioria de americanos se opõe à construção desses centros de dados em suas comunidades. No entanto, o que muitos não sabem é que a China tem sido apontada como o principal vilão dessa narrativa, mesmo que as evidências concretas de sua influência sejam escassas.
O Crescente Descontentamento com os Data Centers
Pesquisas como a realizada pela Gallup em 2026 revelam que 71% dos americanos se opõem à construção de data centers em suas áreas. Essa resistência está diretamente ligada a preocupações ambientais, como o consumo excessivo de água e energia, além de questões relacionadas à qualidade de vida, como poluição e ruído. Segundo Jeffrey M. Jones, analista da Gallup, a oposição aos data centers é semelhante à oposição histórica à construção de usinas nucleares, mas com um nível de rejeição ainda maior.
No entanto, enquanto as preocupações ambientais e de qualidade de vida são tangíveis, a narrativa de que a China estaria por trás desse movimento de oposição carece de fundamentação sólida. Apesar disso, políticos e líderes do setor tecnológico têm se apressado em culpar o governo chinês por essa resistência.
China: O Bode Expiatório Perfeito
Em um artigo publicado pela WIRED, a jornalista Molly Taft questiona por que a China se tornou o bode expiatório perfeito para os entusiastas de data centers. Segundo ela, é mais fácil para os americanos culpar uma entidade externa do que enfrentar problemas internos, como a falta de transparência das grandes corporações tecnológicas ou a resistência natural a mudanças radicais.
Em 2026, figuras como o bilionário Kevin O’Leary e o governo do ex-presidente Donald Trump têm reforçado a ideia de que a China estaria financiado e amplificando campanhas contra os data centers nos EUA. Segundo O’Leary, citado pela Fortune, “a China é um bode expiatório conveniente na política americana, para melhor ou para pior”. No entanto, especialistas como Andy Masley, em seu artigo para o Medium, são céticos quanto à influência real da China nesse contexto.
Masley argumenta que, embora existam grupos alinhados ao Partido Comunista Chinês (PCCh) financiando organizações nos EUA, não há evidências concretas de que essas ações tenham mudado significativamente a opinião pública americana. Além disso, grande parte do conteúdo produzido parece ser propaganda doméstica, destinada ao público chinês, e não uma operação de influência bem-sucedida nos EUA.
Geopolítica e a Corrida pela IA
A preocupação com a construção de data centers nos EUA está intrinsecamente ligada à corrida global pela liderança em IA. Como destacado por Dace Potas em um artigo de opinião para o USA Today, a China estaria “torcendo” para que os EUA atrasem seu desenvolvimento em IA, o que daria a Pequim uma vantagem estratégica no cenário global.
No entanto, especialistas como Flavio Hickel, professor de ciência política na Washington College, alertam que essa narrativa pode estar mais ligada a interesses políticos internos do que a uma real ameaça externa. “Quando os defensores da IA veem um inimigo, pesquisadores da política percebem uma oportunidade de criar um bode expiatório conveniente”, afirmou Hickel à Fortune.
O Futuro dos Data Centers nos EUA
Apesar da oposição pública, os data centers continuam sendo vistos como essenciais para o futuro da economia americana, especialmente no que diz respeito à IA e à computação em nuvem. Segundo a Fox News, cerca de 40% dos novos projetos de data centers foram adiados ou cancelados em 2026, o que pode prejudicar a competitividade dos EUA em relação à China.
No entanto, a solução para esse impasse não parece estar em culpar a China, mas sim em abordar as preocupações legítimas da população. Como sugerido por um artigo no Medium, uma abordagem mais transparente e compensatória, como a distribuição de benefícios financeiros para comunidades locais, poderia reduzir a resistência.
Enquanto isso, a narrativa de que a China está por trás da oposição aos data centers nos EUA continua sendo amplificada, mas com pouca evidência concreta. O desafio agora é separar a geopolítica da realidade e encontrar soluções que atendam tanto aos interesses econômicos quanto às preocupações ambientais e sociais da população americana.