Greater Manchester Diz Não à Palantir: A Batalha pelo Controle dos Dados de Saúde no Reino Unido

O Contexto: Palantir e o NHS

O governo do Reino Unido enfrenta uma crescente pressão para cancelar um contrato bilionário com a Palantir, empresa de tecnologia especializada em análise de dados e inteligência artificial, fundada pelo bilionário Peter Thiel. O contrato, avaliado em £330 milhões, prevê a implementação da Federated Data Platform (FDP), uma plataforma destinada a unificar e gerenciar dados de saúde do National Health Service (NHS), o sistema público de saúde britânico.

No entanto, a resistência ao projeto tem sido forte. Uma das vozes mais contundentes contra a adoção da plataforma é a região de Greater Manchester, que decidiu rejeitar o uso da Palantir, argumentando que suas soluções locais já superam as oferecidas pela empresa americana.

Por Que Greater Manchester Está Dizendo Não?

A Greater Manchester Integrated Care Board (ICB), responsável pela gestão de saúde de 2,8 milhões de pessoas, tomou uma decisão inédita: não adotar a FDP da Palantir. A justificativa? A região já possui um sistema próprio de análise de dados, desenvolvido ao longo de seis anos com tecnologias como Microsoft Azure, Matillion, Snowflake e Tableau. Segundo documentos obtidos pelo Democracy for Sale, a autoridade de saúde de Greater Manchester afirmou que “não há produtos projetados ou produzidos pela Palantir que superem a capacidade local”.

Além disso, a decisão foi motivada por preocupações com:

  • Segurança e privacidade dos dados: A Palantir é conhecida por seus contratos controversos com agências de inteligência e governos, incluindo o Departamento de Defesa dos EUA e o ICE (Imigração e Alfândega dos EUA). A possibilidade de dados sensíveis de pacientes serem acessados ou compartilhados sem transparência gera desconfiança.
  • Eficácia duvidosa: Enquanto a Palantir alega que sua plataforma reduz tempos de espera e otimiza o uso de recursos, apenas 65% das unidades do NHS que adotaram a ferramenta relataram benefícios. Em Greater Manchester, a avaliação é clara: o sistema local já entrega resultados superiores.
  • Falta de confiança: Pesquisas indicam que uma parcela significativa dos pacientes optaria por não compartilhar seus dados para pesquisas se soubesse que a Palantir estaria envolvida. A desconfiança é reforçada pelo histórico da empresa, que inclui contratos com governos acusados de violações de direitos humanos.

A Pressão do Governo e a Resistência Local

Apesar da resistência, o governo britânico e o NHS England têm exercido pressão sobre as autoridades locais para adotar a FDP. Em abril de 2024, o NHS contratou a consultoria KPMG por £8,5 milhões para “promover a adoção” da plataforma. Em agosto do mesmo ano, uma carta assinada por altos executivos do NHS determinou que todas as unidades de saúde deveriam começar a usar a FDP em até dois anos.

No entanto, a estratégia de “terra arrasada” do governo não tem sido suficiente para convencer regiões como Greater Manchester. A decisão da ICB local reflete uma preocupação mais ampla: a perda de autonomia sobre os dados de saúde e a dependência de uma empresa estrangeira com um histórico questionável.

As Controvérsias Envolvendo a Palantir

A Palantir não é uma empresa qualquer. Fundada em 2003, ela se consolidou como uma das principais fornecedoras de tecnologia para agências de inteligência e governos. Seus clientes incluem:

  • O Departamento de Defesa dos EUA, para operações militares;
  • O ICE (Imigração e Alfândega dos EUA), para rastreamento de imigrantes;
  • O governo de Israel, para “apoio a missões relacionadas à guerra”.

No Reino Unido, a empresa já atua em parceria com polícias locais e o Ministério da Defesa. Sua entrada no NHS, portanto, não é vista apenas como uma questão técnica, mas como um risco geopolítico e ético. Ativistas e profissionais de saúde, como a médica Rhiannon Osborne, da organização Medact, alertam que a Palantir “abre portas para o abuso de poder pelo governo” e enfraquece a confiança no sistema de saúde.

Além disso, há denúncias de que o contrato com o NHS foi assinado de forma irregular. Documentos obtidos pelo Good Law Project revelam que o acordo foi publicado com 417 das 586 páginas em branco, incluindo seções cruciais sobre proteção de dados, porque ainda estavam “em negociação comercial”.

O Futuro do Contrato: Uma Decisão Crítica em 2026

O contrato entre o NHS e a Palantir tem duração até 2030, mas inclui uma cláusula de rescisão que pode ser acionada em fevereiro de 2027. O governo britânico deve decidir ainda em 2026 se irá manter, renegociar ou encerrar o acordo.

Enquanto isso, a resistência continua. Mais de 50 mil pacientes já escreveram para as autoridades locais pedindo a não adoção da FDP. Organizações como Amnesty International e Medact lançaram campanhas para pressionar o NHS a cancelar o contrato, argumentando que a parceria com a Palantir “coloca em risco a soberania dos dados de saúde e a confiança dos pacientes”.

Para Greater Manchester, a mensagem é clara: o controle dos dados de saúde deve permanecer nas mãos de quem cuida dos pacientes, não de uma empresa com um passado obscuro e interesses globais.

Conclusão: Uma Disputa Além da Tecnologia

A recusa de Greater Manchester em adotar a Palantir não é apenas uma questão técnica, mas um símbolo da luta pela autonomia e ética no uso de dados de saúde. Enquanto o governo britânico insiste em centralizar o controle dos dados do NHS, regiões como Greater Manchester mostram que soluções locais, transparentes e confiáveis podem ser a melhor resposta.

O desfecho dessa batalha terá implicações profundas não apenas para o Reino Unido, mas para o futuro da governança de dados em saúde pública em todo o mundo. Afinal, quem deve controlar as informações que podem salvar vidas: os governos, as empresas ou as comunidades?

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