O Mistério das Compras em Massa de Livros Raros
Uma prática controversa vem ganhando destaque no mercado de livros raros e usados: empresas de inteligência artificial (IA) estão comprando obras em grande escala, incluindo títulos raros e fora de circulação, para alimentar seus modelos de linguagem. O problema? Muitos desses livros são destruídos após serem digitalizados, gerando revolta entre livreiros, colecionadores e amantes da literatura.
O Caso Anthropic e o “Projeto Panamá”
O caso mais emblemático envolve a empresa de IA Anthropic, que foi acusada em um processo judicial de 2025 de destruir milhões de livros físicos para treinar seus modelos. Documentos judiciais revelaram detalhes do “Projeto Panamá”, iniciado em 2024, no qual a empresa comprava livros, cortava suas lombadas para digitalização e, em seguida, descartava os originais. A prática, conhecida como “destructive scanning” (digitalização destrutiva), foi considerada legal nos Estados Unidos sob a justificativa de “uso transformativo”, mas gerou indignação mundial.
Livreiros em Alerta: “Estão Dizimando Acervos”
Livreiros na Europa, América do Norte e Austrália relatam um aumento repentino de pedidos em massa, muitos deles automatizados e realizados no meio da noite. Segundo relatos compilados por veículos como The Guardian e 404 Media, os compradores — muitas vezes intermediários agindo em nome de empresas de IA — buscam títulos obscuros, fora de catálogo ou edições raras, que podem ser as últimas cópias existentes no mundo.
“De repente, passamos de vender 20 livros por semana para centenas”, contou um livreiro europeu ao 404 Media. “Muitos desses títulos são únicos, e saber que podem estar sendo destruídos é desolador.”
Na Austrália, o livreiro Tim White, da Books for Cooks, classificou a prática como “horrífica”. “Não são apenas objetos; são histórias, conhecimentos e memórias que estão sendo perdidos”, afirmou.
Por Que Livros Raros?
Empresas de IA argumentam que livros impressos são fontes valiosas de dados para treinar modelos de linguagem, pois oferecem conteúdo curado, revisado e livre de “poluição” por outros conteúdos gerados por IA (conhecido como AI slop). Segundo a empresa ISBNdb, que atua como intermediária na compra de livros para empresas de tecnologia, “o melhor dado de treinamento do mundo está em uma prateleira”.
No entanto, críticos apontam que a destruição de livros raros é desnecessária. “Existem milhões de livros comuns que poderiam ser usados sem ameaçar acervos insubstituíveis”, disse uma fonte do mercado de livros antigos ao Dallas Express.
A Defesa das Empresas de IA
A Anthropic negou ter comprado livros raros ou de acervos especializados. Em comunicado ao The Guardian, a empresa afirmou que suas aquisições são feitas em “mercados comerciais tradicionais” e que “nenhum de nossos programas de aquisição de dados compra e destrói livros raros ou antigos”. No entanto, a falta de transparência no processo de compra e a atuação de intermediários dificultam a fiscalização.
O Futuro dos Livros Físicos na Era da IA
A polêmica levanta questões éticas e legais sobre o uso de obras físicas para treinar IA. Enquanto empresas defendem a prática como essencial para o avanço da tecnologia, livreiros e preservacionistas alertam para o risco de perda irreversível de patrimônio cultural.
“Cada coleção é importante”, disse um livreiro ao Ars Technica. “Não podemos permitir que a sede por dados destrua a história.”
Enquanto o debate continua, uma coisa é certa: a corrida por dados para treinar IA está transformando — e ameaçando — o mercado de livros raros de maneiras nunca antes imaginadas.