O Sucesso Polêmico de “Rubberz”
O verão de 2024 foi marcado pelo sucesso estrondoso de “Rubberz”, do rapper Fenix Flexin, membro do grupo Shoreline Mafia. A faixa não apenas dominou as plataformas de streaming, mas também conquistou uma posição no Billboard Hot 100, consolidando-se como um dos hits do ano. No entanto, o que parecia ser uma história de sucesso rapidamente se transformou em um dos maiores escândalos envolvendo inteligência artificial na música.
As Acusações de Uso de IA
Desde o lançamento de “Rubberz”, fãs e críticos questionaram a autenticidade da faixa. As suspeitas se intensificaram quando o produtor e artista Medasin publicou um vídeo no TikTok acusando Fenix Flexin de ter usado a plataforma de geração de música por IA Treblo (anteriormente conhecida como Sonauto) para criar a música. Medasin apresentou uma série de evidências, incluindo:
- Um trecho de uma prévia da música postada por Fenix no Instagram, onde o nome do arquivo ainda continha a palavra “Sonauto”, o nome anterior da Treblo.
- A rebranding da Sonauto para Treblo ocorreu apenas dois dias antes do lançamento de “Rubberz”, levantando suspeitas sobre uma possível conexão entre os eventos.
- Medasin demonstrou como a Treblo poderia gerar letras e melodias semelhantes às de “Rubberz” usando prompts simples, como “80s synthwave” e “rapper lifestyle”.
- O produtor também destacou que a Treblo repetidamente gerava letras similares às de “Rubberz”, como referências a “diamond chains”, “champagne glasses” e “rubber bands snapping”.
A Resposta da Treblo e o Classificador de IA
Diante das acusações, a Treblo decidiu entrar na polêmica de forma inesperada. A empresa lançou uma ferramenta de código aberto chamada Treblo AI Music Classifier, projetada para detectar músicas geradas pela plataforma. Segundo a Treblo, a ferramenta possui uma taxa de falsos positivos inferior a 1 em 10.000, o que a torna extremamente confiável para identificar músicas criadas por sua IA.
Quando “Rubberz” foi analisada pelo classificador, o resultado foi categórico: a música foi considerada “muito provavelmente gerada pela Treblo”, com “alta confiança”. Em comunicado à imprensa, o cofundador da Treblo, Ryan Tremblay, afirmou:
“Alguém parece ter usado nosso modelo para encontrar um som que milhões de pessoas conectaram, e isso é emocionante.”
Tremblay também esclareceu que a empresa não teve contato prévio com Fenix Flexin ou seu produtor, Purp On The Beat, e que só tomou conhecimento da música após ela alcançar o Hot 100.
A Defesa de Fenix Flexin e as Reações da Indústria
Fenix Flexin e Purp On The Beat inicialmente evitaram comentar as acusações, mas, diante da crescente pressão, decidiram se pronunciar. Em uma série de stories no Instagram, Fenix tentou explicar o processo de criação de “Rubberz”, alegando que usou um separador de stems (ferramenta que divide uma música em vocais, instrumentos, baixo e bateria) para manipular a faixa gerada pela Treblo. Segundo ele, suas próprias vocais foram sobrepostas à versão original para “legitimar” a música.
No entanto, Medasin rebateu essa explicação, argumentando que qualquer produtor sabe que essa técnica não elimina os vestígios da IA original. Em um novo vídeo, o produtor afirmou:
“Ele está usando um separador de stems. Qualquer produtor sabe como isso funciona. Ele pegou a saída da Treblo, usou o separador para dividir em quatro stems — vocais, instrumentos, baixo, bateria — e, por baixo disso, adicionou camadas de suas próprias vocais para tentar legitimar a música. Eu gostaria que ele simplesmente assumisse e seguisse em frente.”
A polêmica gerou reações diversas na indústria musical. Enquanto alguns artistas e produtores defenderam o uso de IA como uma ferramenta legítima de criação, outros criticaram duramente Fenix Flexin por não ter sido transparente sobre o processo. A discussão também reacendeu o debate sobre ética no uso de inteligência artificial na música, com muitos questionando se plataformas como a Treblo deveriam ser mais regulamentadas.
O Futuro da Música e da IA
O caso de “Rubberz” levanta questões importantes sobre o futuro da indústria musical. Com o avanço das tecnologias de IA, ferramentas como a Treblo, Suno e Udio estão se tornando cada vez mais acessíveis, permitindo que qualquer pessoa crie músicas com qualidade profissional em questão de minutos. No entanto, a falta de transparência sobre o uso dessas ferramentas pode minar a confiança do público e dos artistas.
Algumas plataformas já estão adotando medidas para aumentar a transparência. A Treblo, por exemplo, defende que artistas e ouvintes devem ter o direito de saber quando uma música foi gerada por IA. Em seu blog, a empresa afirmou:
“Acreditamos que pessoas comuns e artistas de sucesso devem ser livres para explorar e criar com novas ferramentas. No entanto, também acreditamos que os ouvintes devem saber o que estão ouvindo, e os serviços de streaming devem ter as ferramentas para proporcionar uma ótima experiência aos seus usuários.”
Enquanto a indústria musical busca formas de lidar com os desafios impostos pela IA, uma coisa é certa: o caso de Fenix Flexin e “Rubberz” serviu como um divisor de águas, expondo as complexidades e controvérsias de uma nova era na criação musical.